7 de ago. de 2008

JOSÉ: PALHAÇO NEURÓTICO


dirigiu-se amigavelmente ao bilheteiro. o rumor das crianças ao fundo excitava-o. não acredito nisso, por mim: danem-se! entrou tropeçando em seu sapato-bicolor enorme. no picadeiro solto meus demônios! exorcizava-se e sentia-se bem em fazê-lo assim, publicamente, todos rindo e gargalhando demais, e ele ali naquela sublimação, naquele romper os próprios limites!começava imitando todos os artistas participantes do espetáculo, um a um. mas hoje havia um plano. e se eles soubessem? continuariam gargalhando? o momento aproximava-se: quando a malabarista chegou ao seu campo de ação, puxou-a e ambos caíram sobre a rede. gargalhadas e aplausos. abraçou-a e sussurrou: te amo, foge comigo desse lugar horrível! imediatamente ela se desvencilhou, casada com o equilibrista, josé! me respeite! não titubeou: mostrou-lhe a flor que trazia na lapela, e ela, mais para continuar o show do que para aceitar-lhe a cortesia, aproximou-se para cheirá-la. entorpecida, viu a tenda esvair-se em mil cores e formas. acordou nua, amarrada e amordaçada num quartinho pouco iluminado. sem a maquiagem o rapaz é até bonito. e viveram tristes e intensos até o dia em que foram descobertos pelo equilibrista abandonado... atropelou-os
sem-o-menor-ressentimento daquela ingrata. mas, sem que ninguém soubesse, sem que ele admitisse para si mesmo, chorava à noitebaixinho uma foto dela escondida sob o travesseiro.

6 de ago. de 2008

O EQUILIBRISTA ABSTRATO



por que se matou perguntariam os passantes imbecis. mas não perguntaram nada: tinha sete vidas, pelo jeito. a paixão pela mulherbarbada arrebatou-lhe todas as forças, todos os pensamentos: sobre a corda, desequilibrando-se, pensava em casar, os filhos e o casal morando na casa de espelhos. jogou-se do vigésimo primeiro andar contemplando as luzes embaçadas da cidade absurda se aproximarem. o coração já havia parado no nono andar. quando começou a cair com mais leveza: sabia equilibrar o ar, sem cordas. dessa vez, apenas se deixou gravitar, com uma pedra que já não batia mais no peito. as cores cada vez mais fortes. tempo de lembrar num átimo tantos momentos com ela; como era bela antes de fugir... mais leve que o ar, mais pesado que o chão: na calçada espalharam-se parafusos, roldanas, polias e um pouco de sangue. não era pluma. não era pedra. um jeito de não ser nada: equilibrista. parece que vai chover hoje, dia de carnaval.